terça-feira, 7 de setembro de 2010

Mário Gomes – entrevista concedida a Vilma Matos


É sempre um grande prazer estar aqui na Praça do Ferreira, bem em frente ao cine São Luís, e encontrar este grande poeta cearense, o bem conhecido e irreverente MÁRIO GOMES. – Nós que fazemos o "Cá Estamos Nós", gostaríamos de ouvir do próprio, se o que dizem a seu respeito é realmente verdade. Mário, pode nos falar um pouco sobre você? Simpaticamente o nosso entrevistado respondeu:
– Olha, querida Vilma Matos, querida poetisa, sou realmente um poeta maluco e irreverente, e isso é de minha própria índole, não consigo criar um poema que não seja explicitando essas características. Nasci em Fortaleza na Rua Sousa Carvalho, 357 Bairro Bom Sucesso, nasci no dia 23 de julho de 1947, portanto tenho 55 anos de idade, descobri-me poeta aos 18 anos, faz 37 anos que escrevo poesia. Já publiquei 08 livros tenho uma biografia editada por Márcio Catunda, e agora será editado mais uma obra, sendo que dessa vez, deverá ser narrada minha longa história de vida e de loucuras: "Vida e Obra de Mário Gomes" pelo poeta Vicente Freitas, de Bela Cruz. Também já viajei muito pelo Brasil afora, perfazendo um total de 17 viagens, fui 10 vezes a Salvador, quando me dava a loucura, eu me largava daqui para o Rio de Janeiro, isso quando era mais jovem, nos meus 25 a 30 anos, passava de 15 a 20 dias andando pelas estradas desse mundo de meu Deus, cheguei a pegar umas 70 caronas até chegar ao meu destino, quanto a alimentação saia pedindo nas casas de camponeses, restaurantes, chegando ao Rio de Janeiro perdi meus documentos, fui preso... depois de dois há três meses retornava para casa, meus familiares me achavam magrinho e totalmente doido, isso de tanta farra e birita. terminava por ser internado em clínicas ou em hospitais psiquiátricos.
– Mário, dizem que todos os poetas são loucos. Você concorda com isso?
– Eu concordo. Sabe porque Vilma, é que, para mim, o poeta é uma espécie de para-normal, no meu entendimento, um poeta não tem como ser normal, escreve e pensa coisas que em muitas vezes, ele mesmo tem dúvidas se é ou não sua criação, (ele nunca é normal), veja, as pessoas consideradas normais não conseguem compreender a sua própria existência, há pessoas que me fazem perguntas totalmente absurdas, então penso: jamais um poeta faria uma pergunta dessa natureza, pois mesmo aquele que é analfabeto, consegue encontrar na sensibilidade os conhecimentos de que precisa para criar seus trabalhos literários, solta a imaginação e sai descrevendo imagens e situações, jamais imaginadas por alguém que seja poeta (louco). Quase sempre ele atribui suas criações a divindade. Como poetisa você bem sabe, que as inspirações devem vir de uma fonte suprema, portanto necessitamos ter sensibilidade para captar essa mensagem.
– Sua ocupação profissional?
– Vagabundo e Malandro, trabalhei apenas um ano de carteira assinada.
– Mário, isso chega a ser incrível, pois não consigo me imaginar fora do meu trabalho. Poderia citar para nós os nomes de suas obras.
– Vilma, atualmente tenho 08 obras literárias. 1º Lamentos do Ego, 1981; 2º Emoção poética, 1983; 3º Resquícios de uma Paisagem da Vida, 1988; 4º Devaneios e Lamentações, 1991; 5º Aprendizes da Morte, em parceria com Márcio Catunda e Cristiane Marinho; Além do infinito, 1998, e Terno de Poesia, 1997; teve também uma Antologia Poética onde foi feito uma coletânea de todas as minhas obras. E agora estou com um 9º Livro que está no prelo, chamado Ação Gigantesco – vida e obra de Mário Gomes.
– Mário, tem mais algum projeto, além desse último que ainda será editado?
– Sim, tenho.
– Gostaria de falar um pouco desse projeto?
– Sim. Recebi, recentemente, uma proposta da Diretora da Ação Cultural, do Dragão do Mar, a Sra. Elizer Guinter para fazer um documentário cinematográfico sobre a minha vida.
– Muito bem. Parabéns! Autores preferidos?
– Gosto muito dos autores brasileiros como Olavo Bilac, Castro Alves, Vinícius de Moraes, Manoel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e outros.
– Seus cantores preferidos?
– Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethania, Roberto Carlos, Gal Costa, Tom Jobim.
– Um filma comercial?
– Ghost do Outro Lado da Vida.
– Sua melhor qualidade?
– Não gostar de mentir, prefiro arriscar minha própria vida em nome da verdade.
– Seu Maior defeito?
– É não ser rico materialmente.
– Você acredita que se fosse rico materialmente seria tão livre o quanto é hoje?
– A falta de dinheiro, muitas vezes, nos causa angústia, isso por não termos condições de realizarmos nosso projetos e desejos. Muito embora, de certa forma, os bens espirituais sejam superiores aos materiais.
– Mário, apesar de ser do meu conhecimento, nós do Portal "Cá Estamos Nós" e nossos queridos leitores, gostaríamos que você mesmo nos dissemos qual é o seu principal passatempo, isso, somente para confirmar o que dizem por aí, como também termos o prazer de lhe ouvir.
– Querida Vilma, adoro quando chega a tardinha para me sentar aqui nesse banco da Praça do Ferreira, para receber meus amigos e amigas da poesia, para mim, não existe nada mais agradável nesse mundo.
– E quando Criança?
– Bom, eu tive uma infância legal, brinquei muito, todos os tipos de brincadeiras, como por exemplo: bola de gude, soltar pipas, tomar banho de lagoa, brincar com os amigos; foi uma infância legal.
– Como se auto-define?
– Eu me auto-defino como uma pessoa alheia, não gosto de trabalhar para não me sentir preso, amarrado, comprometido; portanto, sou totalmente liberto e não me casei porque queria curtir essa liberdade, também não sou nenhum pilantra.
– Como vai de amores Mário?
– Ah! Minha querida Vilma, não estou nada bem, sofri muitas decepções que me angustiaram, torturaram, por isso, prefiro ficar só, já estou um pouco coroa e um velho apaixonado é a pior coisa que tem.
– Gostaríamos que nos falasse um pouco sobre a cultura em Fortaleza, dentro de um período de 30 a 50 anos.
– Há 30 anos eu estava com 20 anos de idade, e posso lhe assegurar que a cultura em Fortaleza era superior a cultura atual, porque a super-população atrapalha a cultura, pois cria a pobreza, a miséria e o desemprego... então essas pessoas não buscam a cultura preferem as farras as drogas, a cachaça e não procuram se intelectualizar, cultivar as coisas boas da vida, apesar de que hoje as coisas estão bem mais fáceis, pois naquela época eu não tinha condições de comprar um caderno e muito menos um livro para o colégio e hoje o livro que eu quero ler, posso comprar, sem sombra de duvidas; para quem tem sede de aprender está bem mais fácil. Mesmo assim, naquela época, com todas as dificuldades, as pessoas estavam mais voltadas para a cultura. As pessoas valorizavam bem mais...
– Agora, gostaríamos de saber como foi a edição do seu primeiro livro?
– Olha, eu tive muita sorte em publicar o meu primeiro livro, aos 34 anos de idade, em 1981, digo sorte porque passei 15 anos tentando publicar e as condições não me permitiam, então participei de um concurso na Casa de Cultura Juvenal Galeno (Academia Municipalista de Letras), fiquei no 1º lugar, ganhei 10.000 cruzeiros, o Carneiro Portela e outros me ajudaram para que se tornasse possível esse sonho.
– Meus parabéns Mário pela grande vitória. Qual a característica que mais aprecia nos outros?
– Pessoa polida e elegante.
– Qual foi seu maior desafio?
– Viver sem trabalhar.
– Realmente esse é um grande desafio, mesmo me considerando uma mulher ousada, jamais ousaria enfrentar um como esse. Diga-me Mário, você nunca trabalhou de carteira assinada?
– Trabalhei durante um ano, mas isso em São Paulo e foi exatamente por isso que aos 29 anos me aposentaram como louco, insanidade mental, doido mesmo.
– O gênero de filme que daria sua vida?
– A minha própria vida dá um filme legal, com todas as loucuras imaginadas e as não imaginadas.
– Na sua opinião o arrependimento mata?
– Na minha opinião ele mata, apesar de não ser muito fácil, mas na minha opinião leva lentamente o indivíduo a morte.
– De que mais se orgulha na sua vida? (Ele respondeu-me com a voz firme e grave e com a certeza de quem realmente sabe o que diz.)
– De ser poeta.
– O personagem que mais admira?
– Gesse Valadão.
– Uma imagem do passado que não quer esquecer no futuro?
– Da surra que levei em Salvador, tudo por ter sido confundido com um tarado, a minha sorte foi que as vítimas me inocentaram, se não... jamais quero lembrar esse episódio, foi terrível...
– Na sua opinião, a cultura será uma botija de oxigênio?
– Concordo que necessitamos da cultura para respirar.
– Qual o cúmulo da beleza?
– É um homem ser bonito.
– E o da fealdade?
– Alguém tirar a vida de outro.
– Que vício gostaria de não ter?
– De fumar.
– Prato preferido?
– Macarronada.
– Bebida preferida?
– Vinho francês, bem gelado.
– As piadas das louras são injustas?
– Claro que são, não existe essa de loura burra, isso chega até mesmo a ser um maldade.
– Como começa o dia?
– O dia para mim, sempre começa bem, principalmente na hora do café da manhã, adoro aquele pão bem quentinho com manteiga.
– Que influência tem em você a queda da folha e a chegada do frio?
– Acho interessante e mexe comigo porque quando estou sentado aqui na praça e cai uma folhinha em mim, penso que foi um beijo que a natureza me deu.
– Que livro anda a ler ?
– Estou lendo "Saga" de Érico Veríssimo. Se de repente alguém lhe oferecer flores, isto significa uma prova de carinho. O que significa para você o termo Esoterismo?
– Quem bem poderia falar sobre isso era Paulo Coelho, mas no meu entendimento todas as pessoas deveriam buscar informações sobre o assunto.
– Acredita na reencarnação e em fantasmas "almas do outro mundo"?
– Entendo como sendo outro tipo de vida, totalmente diferente da terrena, pois somente será possível conhecer após a morte.
Pode juntar um pequeno trabalho?
– Claro, querida amiga. Vou falar de um grande momento, em que eu conversava com meu espírito:

GRITO DO ESPÍRITO

Sou imortal
eterno, invulnerável...
sou mais importante e superior ao ouro
sou mais forte do que o aço, o ferro
não tenho idade
sou irmão gêmeo de Deus
sou dele inferior
embora seja sua semelhança
vivo encarcerado nessa carcaça de carne e osso
por nome Mário Gomes
um dia me libertarei dando descanso a esse pobre coitado
que sempre me soube aguentar
um dia irei embora para o espaço, no infinito,
no bailar com todos os irmãos encantados
Mário Gomes me desculpe, mais às vezes você me enraivece
com sua sede, com sua embriaguez, com sua fome,
cuidado, um dia irei embora e nunca mais me terás, seu otário.

– Gostaria de deixar uma saudação aos nossos leitores e ao Portal "Cá Estamos Nós"?
– Sim. Porque vocês estão fazendo um trabalho magnífico e merecem todo o carinho e respeito, que com certeza devem ter, pois essa é uma iniciativa que poderia ser imitada por outras pessoas e até mesmo por outros países, isso por ser um trabalho inovador, diferente. Continuem e muito sucesso a todos.




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FORTALEZA em NOTÍCIA. Órgão Informativo de “Cá Estamos Nós” – Diretor: Carlos Leite Ribeiro. Editora: Maria Vilma Matos Peixoto. Edição trimestral – Nº 01, outubro de 2002.

3 comentários:

Sereia... disse...

Gente,que blog magnífico, deveria ser mais divulgado.
Já sou seguidora.

Débora disse...

Quando foi a entrevista?

Lilian Franca disse...

Obrigada pela reportagem. Foi de extrema importância saber mais sobre este personagem irreverente de Fortaleza.